terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ecos do passado recente.




Vallecito, Arequipa. Neste bairro calmo está o The Point hostel. Roberto descasca algumas batatas e corta algumas cenouras. Sua atenção neste presente é prazerosa. Após alguns poucos momentos solitários ele volta a estar com um nobre trabalho que ocupa boa parte do seu dia e está na presença constante de um staff companheiro.

Na sua mente ele recria o dia que chegou neste hostel:



Rob entra no Point pela primeira vez, nota a mesa de sinuca e o gramado com uma pequena piscina que atende três turistas ao mesmo tempo. Na mesa da recepção onde trabalha a Angie estão colados alguns cartoons bem expressivos. Rob observa como os desenhos parecem tomar vida por serem tão expressivos e divertidos.
O Reto aperece com uma espécie de coque no cabelo. Todos olham por onde ele passa.
A Ana é uma jovem loira da Alemanha que neste momento está trabalhando em varios setores do hostel, inclusive ela pode ser vista toda cheia de tinta pintando o muro do Point.




A Lou, outra peruana charmosa é a namorada do James, inglês, dono do hostel. Ela cuida que todos tenham um bom café da manhã com pão, manteiga, geleia, café, chá, leite e frutas peruanas.



Há uma cozinha para os hóspedes usarem e uma usada pela cozinheira Cyntia para fazer jantar para os hóspedes todos os dias. No segundo dia Rob já está se metendo na cozinha da Cyntia para ver se pode aprender alguma receita local. Quando se dá conta o jovem já está ajudando a cozinheira a fazer seus pratos.

No terceiro dia Roberto nota como o staff é buena onda. Parece que a impressão é recíproca pois neste dia ele já está sendo convidado para trabalhar na cozinha com a Cyntia.

Tudo vai naturalmente. Roberto feliza de cozinhar as alternativas sem carne do jantar do hostel. Cyntia, La Chef, troca figurinhas com Roberto The Cook. A primeira mostra alguns pratos peruanos como a Papa a la huancaina- batatas cozidas com um molho lacteo que pode ser bem picante. Por outro lado Roberto mostra para ela como usa suas especiarías favoritas.




Há um terraço e, no meio deste bairro chamado Vallecito, dá para ver o imponente vulcão Misti. Ao lado deste há outro vulcão ainda mais alto chamado Chachani de 6075m de altura ( Misti 5852m).

O Chachani possui um formato irregular enquanto o Misti exibe o formato vulcânico de cone clássico que, com sua beleza, serviria de inspiração nas práticas diárias no terraço do The Point Hostel.

...

Após recapitular como foram os últimos dias Roberto volta a focar sua atencão neste outro presente, nas batatas e cenouras do seu prato do dia. Devaneios com o passado, sejam eles técnicos ou nostálgicos serão cada vez menos comuns nesta viagem. O foco no presente é cada vez mais constante, especialmente neste ambiente estável.

As vezes se escutam alguns nostálgicos ecos do passado.


Mas eles são facilmente reconhecidos como- Ecos.

Ecos do passado distante.

Quando Roberto tinha 20 anos uma frase marcou a sua vida.

No seu Rio de Janeiro natal é comum que uma pequena parte da população mais favorecida tenha uma empregada doméstica. Roberto passou um ano nos Estados Unidos e voltou com uma percepção diferente das coisas, notou que não era comum entre os estadounidenses, exceto pelos bem ricos, ter uma empregada doméstica em casa. Neste sentido eles eram bem mais auto-suficientes.

No auge da sua ideologia utópica-adolescente Roberto vai almoçar com uma família que é como uma segunda família para ele. Ao ouvir os filhos e o Roberto discutirem essas ideias o pai da casa se manifesta com rigor e seriedade:"Não arruma nem a cama e quer mudar o mundo!" .

Simbolicamente o impacto foi tanto que o jovem Roberto começou a se esforçar mais para que outra pessoas não arrumassem a sua cama quando ele mesmo podia realizar esta tarefa ao acordar. Logo o mesmo aconteceu para a comida, começou a cozinhar para si próprio sempre que possível- tomando assim gosto pela culinária- e deste modo foi buscando mais auto-suficiência em todos os aspectos da sua vida.

E no caminhar da sua gloriosa vida Roberto percebia que o " arrumar a cama" significava ainda mais.
Significava também lidar com mais consciência sobre o plano emocional, o mais usado entre as pessoas.
Percebia que os seres humanos parecem lidar com o plano emocional de uma forma quase experimental, o plano racional raramente é utilizado embora muitos preferem pensar o oposto.
Parece que é possível influir positivamente sobre o mundo, mesmo sem entrar no campo das grandes transformações, revoluções, somente neste caso focando o plano pessoal.

Neste sentido o "arrumar a cama" adquire um sentido muito mais abrangente. Quando um ser humano escolhe ser feliz, ter mais energia, mais vitalidade, sentir mais... parece claro que este ser influenciará positivamente o ambiente ao seu redor.

O processo de aprendizagem é constante e cada passo, cada ação é uma oportunidade de praticar a sabedoria passada pelos mais experientes.

sábado, 13 de setembro de 2008

The Point Arequipa.



Um jovem inglês chamado Chris percorre o mundo com uma mochila nas costas e muita animação.
Após imprevistos no sul da Ásia e praias paradisíacas na america central ele parte para Lima, depois vai direto para Arequipa.
O seu destino, Hostel The Point.
Em suas viagens pelo mundo afora Chris conheceu muitos lugares interessantes mas, desde que chega neste hostel ele sente algo diferente.
O espaço é confortável, nem tão grande nem tão pequeno, um ambiente de intimidade entre os milhares de backpackers de todo o mundo que passam por ali.
Chris é um rapaz loiro e robusto, sua figura chama a atenção quando entra em uma das salas principais do hostel. Os hóspedes e o staff participam do Jenga, um jogo onde blocos de madeira são postos de tal maneira que criam uma estrutura bem equilibrada de mais ou menos um metro.


O jogo consiste em cada um dos participantes tendo que tirar por vez um bloco da base e pôr no alto da estrutra. No início é bem fácil mas vai ficando mais difícil quando restam menos blocos de apoio.
Aquele que derrubar toda a estrutura tem que tomar uma dose de pisco...
Chris derruba todas na primeira vez que joga e quando vê já está rindo e entrosado com todos, entre eles um jovem brasileiro chamado Roberto que joga bem o Jenga, mas que em um momento de distração e animação derruba os blocos. Chris nota que ao invés do pisco Roberto discretamente toma uma dose de Sprite.



O tempo passa e apesar do cansaço da viagem Chris quer sair com o pessoal do Point.
Está conversando com a Aine, uma irlandesa simpática, quando chega o Roberto, junto da australiana Bridhe, convocando todos à discoteca local- o Déjà Vu.

A convocação animada parece contagiar a todos pois partem uns 5 taxis do hostel.

A música do Déjà Vu é algo como peculiar, toca trinta minutos de rock, então muda para algo mais eletrônico e termina com reggae (?!?)
O grupo do Point não parece se importar com seus passos de dança mirabolantes. Em um momento mais calmo Cris se aproxima de Roberto e da Bridhe e nota que o brasileiro toma outro sprite.
- Dude how come you are not drinking? (Cara, como é que você não está tomando?)
- Eu estou tomando. - responde Roberto apontando para o Sprite.
- Sim, sim, eu quis dizer... eu vi você como um dos mais animados, imaginei que não seria possível sem alguns drinks.
Roberto sorri e aponta a Chris como se dissesse, "Ahá, viu só?"
Bridhe não se mostra surpresa com a conversa, parece se divertir com tudo isso.

Após este intervalo todos voltam a dançar.
A Aine dança mais discreta mas logo nota que alguns de seus conterrâneos preferem dispensar a sutileza e mergulham no piso como se deslizassem em manteiga.
Reto, um suíço, louco por opção, solta um break dance improvisado com uma sonora gargalhada.

Seis da manhã e todos voltam para o hostel.
Alguns poucos querem extender mais um pouco a noite e vão para o TV room
Chris tem seu merecido descanso sabendo que no próximo dia tudo começa mais uma vez.



sábado, 6 de setembro de 2008

Arequipa.



I don´t remember when it all begun.
I have no idea where it will end.
I only knew feelings, sensations,
and so begun my journey.

( Cirque du Soleil, Journey Of Man)

Finalmente a Cidade Branca.
Arequipa, onde o jovem Roberto será posto à prova.
Terá finalmente uma rotina,
poderá exercitar a autotelia
e melhorar habilidades sociais com os milhares que conhecerá.
Terá claro como é a relação dos seus hábitos com os hábitos alheios.
Uma prova que já começa com vitória.
Só resta fazer da vitória algo comum.
Só resta usar esta racionalidade- experimental no bicho homem-e tentar usar palavras, traços e ruídos como fonte de comunicação.
Ou então na sua prática diária fazer uma referência ao seu sábio Mestre
que desenvolveu notável sutileza.

Em Arequipa o Universal e o particular se revelarão
em mais cores do que nunca.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Ica Round 2

Olhe o deserto ao redor.
Olhe as dunas e as infinitas areias.
Escute a sinfonia, escolha uma.









Chemical Brothers
Come Inside
Sinta a energia e as tolices da juventude
Sinta a adrenalina quando o estranho veículo quase realiza um ¨loop¨ na areia
Os que se atrevem no sandboard caem e rolam na areia.
Está claro que irão aprender esta técnica
em algum momento...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ica




Olhe o deserto ao redor.
Olhe as dunas e as infinitas areias.
Escute a sinfonia, escolha uma.

Johann Sebastian Bach.
(Bach-Werke-Verzeinchnis 1066)
Suíte em Dó Maior.

… e com essa trilha um texto de Fernando Pessoa:

Vive, dizes, no presente
Vive só no presente
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, nao o tempo que as mede
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem
Eu quero só a realide, as cousas sem presente
Não quero incluir o tempo no meu esquema
Não quero pensar nas cousas como presentes, quero pensar nelas como cousas

Não quero separá-las de si próprias, tratando-as por presentes
...
Eu nem por reais devia tratar
Eu não devia tratar por nada.
...
Eu devia vê-las, apenas vê-las
vê-las até não pensar nelas
vê-las sem tempo nem espaço
ver podendo dispensar tudo menos o que se vê
É esta a ciência de ver, que não é nehuma.

Ani roze Lirot otach od peam.





Passar por Lima só porque está no caminho. Só para dar um beijo na Shir e levá-la para o cinema assistir um filme (é outra coisa boa das cidades grandes o fato de ser fácil encontrar um bom cinema).

O hostel desta vez é um focalizado para israelenses. Há algo interessante em estar em um lugar onde todos falam hebraico, e quando um desavisado israelense vem falar com alguém de outro país que por acaso se hospedou ali só resta a este último sorrir e tentar se comunicar em inglês ou espanhol- línguas que a maioria deles dominam apesar de serem bem diferentes do hebraico que eles usam originalmente.

Outra coisa evidente é o fato inegável que todos os israelenses que viajam, mesmo os que não se conhecem, fazem parte do mesmo grupo. É facilmente notável o poder gregário. As vezes chega um novo israelense e, após algumas palavras introdutórias, já está cozinhando junto dos outros ou fazendo alguma atividade em grupo. Não há muita necessidade de integração, todos já estão integrados.

A Shir segue para Huaraz, Roberto pega emprestado dois amigos dela e segue para as dunas de Ica.