
O bus chega em Cusco quatro da manhã; o motorista deixa os estrangeiros dormirem em suas poltronas até as seis.
Seis horas em ponto e quem nos acorda é uma senhora dona de um pequeno hostel, ela nos acorda oferecendo o seu alojamiento com preços convidativos.
O local em questão se chama Samanapata e se revela bem confortável. Alguns rostos familiares que estavam na Bolívia também estão hospedados nesta casa...
Só que a questão finananceira é mais importante neste momento. É preciso encontrar alguma forma de trabalho, pelo menos por alguns dias até voltar a ter a possibilidade de acessar o dinheiro juntado no Brasil. O cenário estava bem claro: ou encontrava um trabalho ou passava fome nos próximos dias.
Na Bolívia houve a tentativa de trabalhar no restaurante Hindu-Boliviano. Aqui não há espaço para "talvez se aparecer algo". Quando na mente não há nem a possibilidade de um "não" o resultado é, certamente, positivo!
Deste modo ainda no primeiro dia em Cusco o primeiro trabalho é oferecido, um trabalho que consistia de trazer turistas para se hospedarem no alojamiento. A cada quatro turistas ficando uma noite o jovem Robert ganharia uma noite grátis com café da manha, almoço e jantar.
A estação de trem local é o melhor local para a captção destes turistas e lá estão todos os taxistas esperando levar potenciais hospedes para algum hostel e ganhar comissão com isso. Todos olham com uma certa hostilidade quando chega este forasteiro brasileiro com flyers nas mãos.
Mas o jovem Roberto não se deixa intimidar e mantém a postura ereta e confiante, um misto de humildade e convicção que este outsider também merecia algumas migalhas deste pão.
Na verdade o trabalho não se mostra difícil, quando os primeiros casais de turistas saem pelos portões da estação eles vão com os taxistas que se aproximam de uma forma totalmente despreparada, quase grosseira. Outro fator determinante era o fato de que eles falam em espanhol e muitos dos turistas não falam esta língua. É só uma questão de tempo, o Roberto fica mais afastado da multidão e percebe quando um grupo de dez checos que não se entusiasmam com as ofertas dos taxistas se distanciam; em um perfeito timing o brasileiro se aproxima, os checos olham seus flyers e suas propostas. Os dez se animam e vão com ele para a hospedagem Samanapata.
Para explicar melhor a sensação do momento em que o brasileiro leva os turistas para a hospedagem é preciso recorrer a um filme que este mesmo brasileiro assistia com uma namorada do passado: " Lendas da paixão".
No filme há uma parte em que o personagem de Brad Pitt fica meio louco e vai embora da fazenda em que vivia. Mais para o final do filme ele reaparece triunfante trazendo consigo vários cavalos. Os seus amigos e parentes notam que é ele que retorna e sorriem de felicidade ao mesmo tempo que gritam " abram os portões!". Os cavalos entram na propriedade e Brad Pitt é a cara do triunfo.
Em Cusco o Roberto salta de um dos taxis dizendo alto "abran las puertas!".
Quando os donos da hospedagem abrem as portas os 10 checos entram e enchem a pequena recepção do hostel... os donos do local olham impressionados.
A primeira noite de trabalho se mostra um sucesso absoluto.
No final das contas os dez checos ficam várias noites e como consequência este brasileiro não precisa mais se preocupar com habitação e comida por mais de uma semana. Nos próximos dias ele voltaria para a estação de trem e traria vários outros hóspedes, desta vez não mais por necessidade, mais como retribuição.
Esta noite ele dorme tranquilo, sabe que fez bem um trabalho.

