quinta-feira, 27 de março de 2008

Lendas incas.



O bus chega em Cusco quatro da manhã; o motorista deixa os estrangeiros dormirem em suas poltronas até as seis.

Seis horas em ponto e quem nos acorda é uma senhora dona de um pequeno hostel, ela nos acorda oferecendo o seu alojamiento com preços convidativos.

O local em questão se chama Samanapata e se revela bem confortável. Alguns rostos familiares que estavam na Bolívia também estão hospedados nesta casa...

Só que a questão finananceira é mais importante neste momento. É preciso encontrar alguma forma de trabalho, pelo menos por alguns dias até voltar a ter a possibilidade de acessar o dinheiro juntado no Brasil. O cenário estava bem claro: ou encontrava um trabalho ou passava fome nos próximos dias.
Na Bolívia houve a tentativa de trabalhar no restaurante Hindu-Boliviano. Aqui não há espaço para "talvez se aparecer algo". Quando na mente não há nem a possibilidade de um "não" o resultado é, certamente, positivo!
Deste modo ainda no primeiro dia em Cusco o primeiro trabalho é oferecido, um trabalho que consistia de trazer turistas para se hospedarem no alojamiento. A cada quatro turistas ficando uma noite o jovem Robert ganharia uma noite grátis com café da manha, almoço e jantar.

A estação de trem local é o melhor local para a captção destes turistas e lá estão todos os taxistas esperando levar potenciais hospedes para algum hostel e ganhar comissão com isso. Todos olham com uma certa hostilidade quando chega este forasteiro brasileiro com flyers nas mãos.
Mas o jovem Roberto não se deixa intimidar e mantém a postura ereta e confiante, um misto de humildade e convicção que este outsider também merecia algumas migalhas deste pão.
Na verdade o trabalho não se mostra difícil, quando os primeiros casais de turistas saem pelos portões da estação eles vão com os taxistas que se aproximam de uma forma totalmente despreparada, quase grosseira. Outro fator determinante era o fato de que eles falam em espanhol e muitos dos turistas não falam esta língua. É só uma questão de tempo, o Roberto fica mais afastado da multidão e percebe quando um grupo de dez checos que não se entusiasmam com as ofertas dos taxistas se distanciam; em um perfeito timing o brasileiro se aproxima, os checos olham seus flyers e suas propostas. Os dez se animam e vão com ele para a hospedagem Samanapata.

Para explicar melhor a sensação do momento em que o brasileiro leva os turistas para a hospedagem é preciso recorrer a um filme que este mesmo brasileiro assistia com uma namorada do passado: " Lendas da paixão".
No filme há uma parte em que o personagem de Brad Pitt fica meio louco e vai embora da fazenda em que vivia. Mais para o final do filme ele reaparece triunfante trazendo consigo vários cavalos. Os seus amigos e parentes notam que é ele que retorna e sorriem de felicidade ao mesmo tempo que gritam " abram os portões!". Os cavalos entram na propriedade e Brad Pitt é a cara do triunfo.

Em Cusco o Roberto salta de um dos taxis dizendo alto "abran las puertas!".
Quando os donos da hospedagem abrem as portas os 10 checos entram e enchem a pequena recepção do hostel... os donos do local olham impressionados.

A primeira noite de trabalho se mostra um sucesso absoluto.

No final das contas os dez checos ficam várias noites e como consequência este brasileiro não precisa mais se preocupar com habitação e comida por mais de uma semana. Nos próximos dias ele voltaria para a estação de trem e traria vários outros hóspedes, desta vez não mais por necessidade, mais como retribuição.

Esta noite ele dorme tranquilo, sabe que fez bem um trabalho.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Ruinas en el porvenir




Ao partir da Isla del Sol e de Copacabana é hora de cruzar mais uma fronteira internacional.
Desta vez é o Peru, terra onde a antiga presença dos Incas no auge da sua civilização se mostrou mais presente.
Toda uma cultura devastada por outra cultura dominante, um massacre com precedentes históricos.
No meio desse background uma beleza natural de verde húmido no meio das ruínas dos antigos edifícios de pedra.

O onibus leva direto a Cusco, uma das maiores cidades do Peru e base para as viagens à mítica Machu Picchu.
Um momento de incerteza quando este Robert está sem seus documentos e sem seus cartões de créditos ( eles se perderam na Bolívia).
Nao há como retirar o dinheiro juntado para a viagem e pelos próximos dias não há ninguém para enviar o dinheiro por algum Western Union.
E assim, aqui no meio desta cidade do Peru é chegado o momento de improvisar.

Sol Invictus

Ao acordar a energia está mais revitalizada do que nunca!
Mais uma prática inesquecível e um café da manha com pão feito na hora- farinha, água e sal, numa panela ao fogo da lenha provida pelas árvores de eucalipto.
Um mate, abacates e bananas, nao dá para ser muito melhor!
Ainda é manha e o tempo realmente parece não passar.
O que vem a mente são as histórias proferidas pelos professores, histórias sobre os antigos povos do campo. Uma vida sempre assim, lenta, onde os atos são mais medidos... se fala menos, se pensa menos.

Os pés deste Robert pisam na água geladíssima do Titicaca, pouco a pouco todo o corpo afunda no lago congelante. Os pulmões parecem fechar e cada parte da pele parece estar ultra- sensível. Do lado de fora a Johanne acompanha a s caretas deste rapaz que não resiste e volta para a margem para a ficar ao sol perto dela.
Uma experiência intensa, só que um banho quentinho seria mais interesante.
A Johanne entre outras coisas promete o melhor apfelstrudel quando for visitada na Alemanha


e

Já não há mais frio.

sábado, 1 de março de 2008





Do alto Calvário em Copacabana Rob, Johanne, Lorena e Silvina observam como tudo é pequeno visto do alto. Algumas ilhas podem ser avistadas e todos decidem passar alguns dias na Isla del Sol. A Alex tomou outro rumo com as francesas. Desta vez ela não estará presente.

Ao encontrar o velho señor Mathias, um barqueiro de cara larga e simpática o transporte é garantido. O passeio de barco dura aproximadamente umas duas horas pelo grande lago.





A Ilha do Sol é uma ilha pequena com alguma estrutura turística no topo de um morro. Porém o grupo que salta do barco fica na parte baixa da Ilha, em um pequeno terreno sem banheiro, cozinha ou nenhum dos confortos básicos. Só uma área para botar a barraca e uns quartinhos rústicos.

Na companhia de um artesão argentino começamos a buscar folhas e galhos de eucalipto para poder acender o fogo para o almoço. Depois de um mate uma prática incrível; o tempo parece não passar na Ilha do sol, horas parecem dias. Durante a noite o céu mais estrelado de todos os tempos e todos se aquecem perto da fogueira tocando tambor e cantando até dar vontade de dormir.



A Alex reaparece e rouba a atenção dada ao por do sol. De suas mãos partem pedras que quicam sobre a água do Titicaca até afundarem.

A Alex e o Roberto são agora duas crianças crescidas que com sorrisos brincalhões moldam a realidade próxima como se fosse uma massinha. Sentem tranquilos também que a realidade como um Todo não pode ser mudada. Mas que a influência de uma pessoa que está conectada a este Todo pode ser sentida, a influência mesmo quando pequena pode ser notada.

A Alex revela seu caráter não-crente uma característica cada vez mais comum nos jovens de hoje em dia. Ela observa como a pedra inevitavelmente afunda na água após ser arremessada, desta forma a francesa descreve para si mesmo como serão seus próximos passos... de um modo bem pragmático, sem muitos rodeios.

Durante a noite a atenção volta para um saxofonista com barba longa, cultivada durante anos.Um solo longo e desconcertante provido do sax dourado. Todos no pequeno e confortável restaurante apreciam a atuação. Quanta intensidade, quanto sentimento. As veias saltam na testa e no pescoço do saxofonista enquanto sua face toma um tom rubro durante a conclusão do solo.O que segue são aplausos entusiasmados de um público privilegiado.