segunda-feira, 27 de agosto de 2007



Quantas pessoas, quantas vidas distintas.
Numa viagem com pessoas tão diferentes o que se nota é algo universal.
Muitas pessoas buscando um sentido, ou simplesmente tentando viver intensamente.
Neste cenário estar feliz e não buscar nada é um privilégio e é privilegiado assim que eu me sinto.
Fui ao mercado central de Potosí para me aventurar nas tantas variedades de legumes, verduras e temperos... tantas cores que eu me senti inspirado para cozinhar para o pessoal do hostel.
E que momento divertido! Foi uma refeição simples: Arroz acompanhado de cenouras, batatas e abóboras. Não sei se foram as especiarias que eu trazia comigo. Talvez tenha sido a pimenta boliviana que deu um toque especial!
Fiz o suficiente para umas quinze pessoas e a esta altura já éramos um grupo internacional bem integrado. Ver a reação de felicidade deles com o jantar foi sem dúvida recompensador.

No dia seguinte o sol brilhava forte e o clima estava agradável. Uma festa na rua para variar. Aqui parecia que haviam festas e blocos de rua todos os dias com muitas cores e música.

Potosí se revelou ainda mais interessante do que Sucre. Um pouco maior, mais desordenada e com novos componentes que me despertaram a curiosidade.
Aqui a altitude e o frio se mostraram mais intensos. Na primeira ladeira que tive que subir senti um cansaço forte. No Rio eu estava em boa forma mas aqui eu tive que reaprender a administrar o oxigênio e a respirar de uma forma compatível com o clima rarefeito.
Os exercícios respiratórios ajudaram bastante e pouco a pouco eu fui me acostumando.
As minas de metais são a maior fonte econômica da cidade. Trabalhar em um local fechado e empoeirado em um local alto como Potosí me parecia uma loucura mas a maioria das pessoas havia trabalhado nelas ao menos uma vez na vida, e aqueles que ainda trabalham tem a expectativa de vida de uns 35 anos...
Cheguei neste Hostel, La Casona, e me senti a vontade.
Estava tarde mas estava esta menina do Quênia que morava em Londres e passeava pela Bolívia. Mesmo muito cansado me diverti com as historias que ela me contou durante algumas horas.
Finalmente me rendi a um sono agradável sob três mantas.

sábado, 18 de agosto de 2007

Imastyki = ¿Que te llamas?






Sucre, Bolivia.

Sucre foi uma ótima surpresa. O caminho de Santa Cruz até aqui já foi bem promissor com um rio seco e uma pequena cordilheira que não se parecia com nada que eu havia visto até então.
Engraçado como apesar de estar viajando por conta própria eu nunca estive de fato sozinho em nenhum momento. O legal é que quando você vê uma pessoa de fora caminhando por aí você geralmente pode chegar e falar com esta pessoa como se ela fosse conhecida sua de toda a vida.
Assim, eu tomei café da manhã com um pessoal da Holanda e Austrália, almocei com uma menina da Alemanha que conheci na praça e encontrei novos viajantes pela noite...
Aqui em Sucre, após alguns sufocos iniciais na fronteira com o Brasil e em Santa Cruz eu finalmente me sentia na Boliva.
A arquitetura colonial, o povo hospitaleiro... gostei de tudo nesta cidade.
Me disseram que Sucre era bonitinha mas não valia a pena ficar muito tempo, realmente a cidade é pequena mas vale uma estadia de dois dias.
Vim dormindo no ônibus e deixei as malas na rodoviária já que pela noite eu iria para Potosí.
Em algumas horas conheci bem o centro da cidade e fui caminhando até o Mirador pela calle San Alberto.
Foram os melhores momentos da viagem até então. Nada de realmente excepcional mas fiquei lá em cima com uma vista privilegiada da cidade enquanto olhava os jovens jogando bola na praça. Eu sentia um pouquinho os efeitos da altitude e fazia exercícios respiratórios para compensar.
Algumas jovenzinhas que estudavam me olhavam com curiosidade, com alguma timidez se aproximaram e puxaram conversa. Foram elas que me ensinaram como dizer " Como se chama?" em Quecha, língua dos povos nativos que muitos ainda falam por aqui.
As chôlas também estavam por toda parte com os tecidos coloridos envolvendo o corpo, com a expressão distante e algumas com um bebê nas costas.
Foram horas muito agradáveis com um friozinho que não chegava a incomodar mas logo chegou o final da tarde e era hora de ir para Potosí.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007


Cruzando a fronteira.

De Cáceres peguei o ônibus que partia cinco da manhã. Ainda bem que acordei sozinho 4:40 porque eu havia pedido para o vigia me acordar 4:30 e ele simplesmente se esqueceu.
Agora sim eu iria finalmente estar na Bolívia, o primeiro destino internacional.
Cheguei cedo ainda em San Mathias. As primeiras bandeiras foram avistadas enquanto eu era encaminhado a uma casa do exército onde eles carimbaram meu passaporte.
Foi um dia pouco comum, era feriado nacional na Bolívia. Eu ainda estava sonolento quando vi uma tropa grande do exército desfilando nas ruas de terra da cidade. Fiquei algumas horas ali, vendo as crianças bolivianas de uma escola local brincarem até chegar o ônibus para Santa Cruz.

...

Até então só tinha travado contato com brasileiros, mesmo em San Mathias. Depois de percorrer a estrada em um percurso mais longo ao som de pagodinho brasileiro de quinta categoria cheguei em Santa Cruz e conheci alguns bolivianos na rodoviária.
A cidade à primeira vista era bem mais urbana-caótica. Fui para um alojamento no centro da cidade mas não me sentia seguro de deixar a mochila nem mesmo no meu quarto.
Comprei uma passagem para Sucre e ao embarcar conheci três brasileiros, Dois de BH e uma de Sampa. Conversamos um pouco no caminho mas eles seguiram viagem com destino a Potosí. Eu iria parar em Sucre antes.

Levei um caderno para fazer anotações mas ele ficou na mochila. Me acostumei a escrever em folhas de guardanapo...

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Centro Oeste e fronteira.

Cuiabá, Brasil.
Depois de encontrar uma passagem pela metade do preço eu voei para Cuiabá. Esta pequena mudança na verdade mudaria totalmente meu itinerário planejado, mas tudo bem, eu já esperava por isso. Cheguei por volta de meia noite, numa hora em que o frio se mostrou forte pela primeira vez.
Estava bem protegido com o cachecol que uma amiga querida me deu de presente e nem senti falta do casaco.
Fui para uma pousadinha simples chamada Eco do Pantanal. Havia na rodoviária um representante de lá que nem cobrou pelo transfer.
Como havia dormido pouco aproveitei o friozinho e tirei o sono atrasado. No dia seguinte após o café da manha peguei um táxi para a rodoviária de Cáceres que é uma cidadezinha bem pequena, mesmo senda a maior do Mato Grosso ( e segundo alguns a mais pobre do estado).
De lá eu iria para a Bolivia...
Tive que dormir em Cáceres uma noite já que o ônibus só sairia às 5 da manha do dia seguinte.
Depois de passar por uma cidade cara como São Paulo aqui eu sentia que fazia uma economia significante. Claro que eu não poderia esperar muito luxo, uma simples cama já seria mais que suficiente.
Aqui tive que usar algum español pela primeira vez .
Quando fui tomar banho percebi que da altura do peito para cima a parede do banheiro era vazada e quem estava do lado de fora poderia ver quem se banhava.
Já estava me preparando para a ducha ( fria como única opção) quando ouço uma voz de meninha.
" ¿Tienes Papel?"
Percebi que era uma menina Boliviana de uns 7 anos, após a surpresa inicial respondi com um "No".
Ela não pareceu se dar por satisfeita pois continuou perguntando:
" ¿Y como te va a limpiar?
Eu sorri e respondi:
"Solo me voy a bañar."
Agora sim ela pareceu entender. Sorriu de volta e foi embora.

….

Após o banho o momento parecia ideal para a minha prática diária. Não sei exatamente o porquê mas foi a melhor prática individual das últimas semanas.

Era dia de dormir cedo, 4:30 da manha eu teria que acordar.

Urbes

Primeira parada São Paulo
Escolhi dar uma parada nesta grande metrópole para evitar uma viagem de mais de 24 horas até a fronteira com a Bolívia.
Ao chegar na rodoviária do Tiete lembrei pelo preço do café da manhã que as coisas eram mais caras por aqui, pelo menos em relação às outras cidades do meu itinerário. Tive vontade de não ficar nem uma noite em Sampa, mas ao pensar melhor vi que seria melhor descansar uma noite já que não havia dormido no ônibus no trecho Rio-Sp.
Liguei para um dos meus contatos em Sampa, o grande Rodrigo Machado. Mesmo todo cheio de trabalho ele se comprometeu a me buscar próximo ao MASP na Av. Paulista.
Ao saltar da estação do Metrô senti algo como um bafo de fumaça no ar. Parecia piada, um clichê de cidade grande com uma grande núvem cinzenta rodeando a cidade. Logo percebi que foi uma sensação passageira (ou os meus sentidos se adaptaram ao novo cenário). Minha atenção voltou-se ao visual imponente ao redor, com todos os mega-edifícios e com toda a vibração pró-labore do local.
Sou do Rio de Janeiro mas posso dizer sem hesitar que adoro São Paulo. É sempre um prazer enorme visitar a cidade.
Tiësto e Armin Van Bureen providenciam a trilha sonora que parece combinar perfeitamente com o que vejo aqui.
Na mochila uma edição bilíngue de um Neruda espera para ser devorado.